A saúde que a arte produz à mente

Janeiro e suas chuvas bem-vindas aqui na capital maranhense. O verde da cidade ganha vida e, entre um céu nublado, algumas manhãs têm revelado um azul acolhedor matizado de pinceladas brancas de nuvens esfarrapadas. Olhar para este céu pleno deste azul profundo dá uma agradável sensação de que é bom estar vivo.

Assim como os outros meses do ano, Janeiro ganhou a cor branca para chamar a atenção para um importantíssimo tema do cuidado com a saúde mental por meio da frase “Quem cuida da mente, cuida da vida”. Desde 2014 esta campanha se realiza para colocar na pauta um chamado ao zelo e atenção com a realidade cada vez mais presente dos males que a alma sofre. O mês foi escolhido por iniciar o ano e ser cenário do começo do cumprimento de muitas promessas que as pessoas fazem a si mesmas.

Nesse contexto, o trabalho desenvolvido pelos médicos é de fundamental importância. E em especial, daqueles que com sensibilidade e compaixão, conseguem aliviar males e amainar dores. Invoco a lembrança de Nise da Silveira, psiquiatra brasileira que alcançou reconhecimento internacional pelo impacto produzido a partir de suas ações libertadoras na forma de ver e tratar as pessoas portadoras de doença mental. Seu legado influenciou fortemente o movimento da luta antimanicomial e, sem dúvida nenhuma, redundou na lei da Reforma Psiquiátrica, quase quarenta anos depois.

Nise antecipou em mais de vinte anos o que protagonizou Franco Basaglia, na Itália, mas que depois de suas iniciativas tiveram alcance mundial. O paralelo entre os dois está, fundamentalmente, no olhar compreensivo e humanizador para o doente mental. Basaglia mereceu o reconhecimento, mas nossa Nise teve algo como uma antevisão de um futuro que, naquele momento (anos 1940) parecia algo mais insano do que os sintomas que seus pacientes apresentavam. Refiro-me ao fascinante trabalho que desenvolveu por meio da arte, da escuta e observação de cada paciente, como um ser único em sua individualidade e adoecimento.

O esforço de Nise rendeu mais de 350 mil trabalhos de arte produzidos por pacientes que, reunidos, tornaram-se o Museu de Imagens do Inconsciente. Este enorme acervo até hoje é fonte de estudos do que estava para além das lobotomias e choques elétricos dados sem qualquer critério – totalmente diferente da moderna eletroconvulsoterapia – e causava aquilo que Basaglia chamaria, em futuro não muito distante, de “duplo da doença mental”.

Para aqueles que querem conhecer um pouco mais do trabalho de Nise da Silveira, recomendo o excelente filme protagonizado pela atriz Glória Pires, “Nise, no coração da loucura”, que apresenta uma ideia muito próxima do que aquela nordestina sensível e visionaria produziu numa época em que quase não havia mulheres médicas, menos ainda psiquiatras.

A arte foi seu meio e seu instrumento. Seus insights sobre as mandalas produzidas por um paciente a aproximaram de Karl Jung e deste recebeu efusivos incentivos no aprofundamento de seus estudos, o que transformou Nise, algum tempo depois, na maior autoridade em abordagem junguiana, no Brasil. Nise tinha uma sensibilidade espontânea.

A propósito deste Janeiro Branco – e a despeito das vicissitudes que ele evoca – lembro da magistral obra de Machado de Assis, O Alienista. O médico Simão Bacamarte, “especialista nas mazelas da alma humana” é protagonista de uma história curiosa, cheia de detalhes impressionantes. A obra serve para desmistificar preconceitos em relação aos doentes mentais. A certa altura, o personagem constata: “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”. Ambos os médicos aqui citados – tanto a real Nise como o fictício Simão – têm algo a nos ensinar: a redenção que arte promove.

Natalino Salgado Filho
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* Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA

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