Estranho mundo novo

Natalino Salgado Filho*

Natalino Salgado alerta para as graves consequências do movimento antivacinação

Um fato nestes novos tempos que vem chamando a atenção é um movimento antivacinação que se desenvolveu e tem ganhado corpo nos EUA e na Europa com graves consequências até o momento; entre elas, a eclosão de surtos de sarampo, que só no ano passado matou quase quarenta pessoas na Europa.

A origem desse movimento reporta ao ano de 1988, quando foi publicado um artigo na prestigiosa revista científica Lancet, de autoria de um médico inglês, no qual este afirmava que havia indícios de relação causal entre as vacinas – especialmente a BCG, que as crianças precisam tomar nos primeiros anos de vida – e a ocorrência de autismo.

Embora quase imediatamente a própria revista tenha reconhecido falhas na aceitação e publicação do texto e o tenha retirado de seus arquivos pela primeira vez em sua história, o fato é que muitas pessoas haviam lido e tomado a informação como verdade. O médico autor foi desacreditado em suas afirmações por inúmeros outros especialistas e até mesmo pela Organização Mundial de Saúde.

No presente, os noticiários dão conta de que outras doenças consideradas erradicadas como difteria, coqueluche, retornaram em surtos nos dois lados do Atlântico. Países como França, Itália e Alemanha, com diferentes estratégias e força legal, têm determinado que a população menor seja vacinada, sob ameaças de penalidades aos pais que se recusarem.

Em vinte estados americanos, as pessoas podem alegar motivos religiosos para não vacinar seus filhos. Mas há outros motivos em que os defensores da não vacinação se apoiam, sem qualquer suporte científico. Alguns alegam que o estímulo ao sistema imunológico feito com vacinas não é natural. Outros acreditam que podem imunizar seus filhos apenas com fórmulas homeopáticas. Há quem resista à vacinação por causa dos efeitos colaterais nas crianças. É com espanto que a comunidade científica assiste ao engajamento daqueles que defendem a não vacinação, a despeito do histórico de sucesso das campanhas de imunização em todo o mundo.

No Brasil, a questão começa a ganhar notoriedade e mais pessoas têm adotado essa postura, como um efeito da recente retomada do movimento antivacinação em outros países. Isto deve alertar os serviços de saúde a trabalharem ainda mais com campanhas educativas antes que surtos se repitam aqui, como nos países mencionados. A OMS afirma que entre 2 e 3 milhões de mortes são evitadas pelo mundo por causa da vacinação. Infelizmente, dois milhões de pessoas morrem por causa de doenças que têm imunização disponível.

Dr. Guido Levi, autor do livro “Recusa de Vacinas – causas e consequências” argumenta que, em palestra para profissionais de saúde, perguntou quantos casos de pólio, sarampo e varíola eles viram. A resposta foi nenhum caso. Há algumas décadas, a varíola, só na Europa, tinha 400 mil novos casos por ano, antes da vacinação que a erradicou. Quando os espanhóis chegaram ao Novo Mundo, trouxeram a doença que matou 3 milhões de pessoas. Com a imunização, nenhuma morte foi registrada. Parece, porém, que fatos e estatísticas historicamente fiáveis e perfeitamente verificáveis não são suficientes contra o obscurantismo. Temos que estar vigilantes.

*Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA

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